Ontem mesmo eu te vi, do outro lado da rua. Queria ter gritado seu nome, pra ver se você me olhava. Queria te ver de perto, te tocar, lembrar de como era bom e macio aquele seu toque leve que ia passeando pelo meu corpo. Queria olhar pra você e que você olhasse pra mim, mesmo que fosse pra dizer que eu fico péssimo com esse corte de cabelo, mesmo que fosse pra me dar um tapa certeiro na cara e me deixar com uma marca maior ainda de humilhação. Queria ter atravessado a rua gritando que te amava, fazendo o trânsito inteiro parar pra ver a gente se beijando naquele reencontro. Queria pelo menos que você tivesse olhado pra mim, nem que fosse daquela distância mesmo. Eu te olhei durante os quarenta minutos que você esperou no lado direito do banco, tentando roubar alguma coisa de você, tentando achar o meu cheiro naquele cabelo brilhante e um pouco oleoso, tentando achar alguma marca da minha boca naquele seu pescoço sujo. Tentando qualquer coisa, tentando só olhar sem me desviar pra nenhuma lembrança.
Você me ignorou, durante quarenta minutos, você conseguiu ficar sem olhar pro outro lado da rua. Durante quarenta minutos você conseguiu toda a concentração mesquinha da sua vida. Você chegou, sentou e esperou. Como se esperar implicasse em só uma ação vaga e imóvel, olhando pro fim da pista procurando um letreiro ambulante. Durante quarenta minutos você conseguiu me prender e durante todo esse tempo você conseguiu me ignorar, durante todo esse tempo você conseguiu ignorar o mundo, como se só houvesse você num raio de anos luzes. Mas tudo bem, de uns tempos pra cá eu resolvi te odiar: VACA!


